
A classificação para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 exige planejamento de longo prazo, evolução técnica e capacidade de adaptação. Nesse caminho, a Nacra Cup Valencia, programada para 21 a 24 de outubro, terá papel importante para Marina Arndt e Bernardo Peixoto, representantes da Equipe Olímpica LA2028, do Instituto Bons Ventos. A dupla brasileira está na Espanha para treinar e medir seu estágio de preparação na classe Nacra 17.
A competição também representa um momento relevante na retomada de Marina, que sofreu uma lesão no começo de 2026 e precisou interromper os treinamentos durante parte da temporada. Em Valência, a prioridade será compreender o nível atual da dupla diante dos concorrentes e reunir informações para orientar os próximos passos do trabalho.
“Para a gente, a Copa de Valência é muito importante porque eu me lesionei no início do ano. É importante entender como estamos em relação aos outros competidores. Não temos uma meta em números, mas queremos aprender o máximo possível, entender onde a classe evoluiu, o que precisamos mudar e melhorar, e voltar para casa para fazer o trabalho”, explica Marina.
O programa de preparação é organizado de acordo com as condições do vento, fator determinante para a rotina da vela. Os atletas buscam treinar na água cinco dias por semana, com horários flexíveis para aproveitar os períodos mais favoráveis. Quando a previsão indica vento pela manhã, o trabalho começa com a montagem do barco e a navegação. Depois, a dupla verifica os equipamentos, discute o desempenho e cumpre as atividades físicas. Se o vento melhora à tarde, a programação passa por uma inversão.
Os treinamentos náuticos combinam exercícios para ganhar velocidade, refinar a técnica e recuperar a experiência em situações reais de disputa. Ao velejar com outros barcos, Marina e Bernardo simulam cenários de regata e aprimoram as decisões durante a competição. A preparação fora da água inclui programas físicos individuais, com ênfase em força e potência. Marina acrescenta sessões cardiovasculares intervaladas à sua rotina.
Confiança entre os velejadores fortalece a campanha
A sintonia da tripulação é um componente decisivo na classe Nacra 17, disputada em catamarãs mistos com foils. Além de velocidade e precisão, a modalidade requer entendimento entre os atletas para executar manobras e tomar decisões em conjunto.
Marina e Bernardo iniciaram a parceria em 2025, ano em que alcançaram a 17ª colocação no Campeonato Mundial. Ao avaliar o desenvolvimento da dupla, a velejadora aponta a melhora na comunicação e no respeito às responsabilidades de cada integrante como conquistas importantes.
“A gente tem uma sintonia muito boa na água. Aprendemos a entender como o outro pensa e a respeitar a decisão de cada um dentro das suas áreas de responsabilidade. Hoje nos sentimos muito mais confortáveis no barco. As coisas fluem naturalmente e temos mais facilidade para tirar o olho do barco e pensar taticamente”, conta Marina.
A logística dos treinamentos é definida com antecedência de vários meses. No Brasil, o Rio de Janeiro concentra as atividades conjuntas, e Bernardo viaja para a cidade durante os períodos de preparação. A agenda da dupla também precisa levar em conta a atuação de Marina como reserva do Mubadala Brazil SailGP Team, representante brasileira no circuito internacional de vela de alta velocidade.
A experiência no SailGP amplia o contato da atleta com alguns dos principais profissionais do esporte e contribui para seu aprendizado técnico. Marina também destaca a importância de observar o comprometimento e o profissionalismo presentes na equipe. Ainda assim, o objetivo olímpico orienta as decisões sobre o calendário: neste ano, ela optou por não disputar uma etapa do SailGP para cumprir os compromissos da classe Nacra 17.
Primeiras vagas olímpicas entram no horizonte em 2027
Depois da etapa espanhola, o planejamento de Marina e Bernardo terá como foco uma temporada com disputas fundamentais para a campanha rumo a Los Angeles. O Campeonato Mundial de Vela, em Gdynia, na Polônia, distribuirá as primeiras vagas olímpicas da classe Nacra 17. Outro compromisso previsto é o Pan-Americano de Lima, no Peru.
“Esse campeonato não é o nosso objetivo final. É um campeonato para aprender, porque no ano que vem teremos competições muito importantes, como o Mundial, seletivo para as Olimpíadas, e o Pan-Americano”, ressalta Marina.
Para alcançar o nível necessário, os velejadores precisam equilibrar horas de treinamento com investimentos em equipamentos. A atleta considera que o acesso a recursos é determinante para desenvolver materiais e manter uma preparação compatível com as exigências de uma campanha olímpica.
“A gente precisa de muitas horas na água, muitas horas de qualidade treinando. Mas também precisa focar no desenvolvimento de material, e isso vem muito com os recursos disponíveis. Precisamos trabalhar bastante nessa parte para conseguir ter os recursos necessários para fazer uma campanha olímpica de qualidade”, destaca.
A dedicação ao esporte de alto rendimento também envolve renúncias e desafios emocionais. Marina relata que permanecer longe de casa, da família e dos amigos durante viagens e períodos de treinamento é difícil. Ela aponta, ainda, a maneira de enfrentar derrotas e desempenhos abaixo das expectativas como uma das partes mais exigentes da carreira.
“A parte mais difícil não é exatamente a física. Ficar longe de casa, da minha família e dos meus amigos é muito difícil. Mas acho que a parte mais difícil, da qual ninguém fala, é que a gente perde muito mais do que ganha. E é muito difícil superar os dias em que voltamos para casa decepcionados com a performance”, afirma.
A preparação da dupla integra a Equipe Olímpica LA2028, iniciativa do Instituto Bons Ventos para apoiar atletas brasileiros no ciclo até os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. O projeto é realizado por meio da Lei Federal de Incentivo ao Esporte, tem patrocínio do Grupo Energisa, Icatu Vanguarda e OceanPact e recebe apoio da Confederação Brasileira de Vela (CBVela).
Instituto Bons Ventos apoia o desenvolvimento esportivo
Fundado por atletas olímpicos, medalhistas pan-americanos, campeões mundiais, gestores esportivos e empresários do setor, o Instituto Bons Ventos trabalha para promover o esporte como ferramenta de desenvolvimento social. Entre suas atividades estão a gestão de projetos, a realização de competições e o apoio à carreira de atletas.
A organização possui experiência na estruturação e viabilização de iniciativas financiadas por incentivos fiscais, incluindo a Lei Federal de Incentivo ao Esporte (Lei 11.438/2006) e normas relacionadas nos âmbitos estadual e municipal.
Sua atuação abrange o ciclo completo dos projetos, da captação de recursos junto ao mercado à execução e à prestação de contas. Com esse trabalho, o instituto busca ampliar o acesso ao esporte, gerar oportunidades para atletas e colaborar com a formação de novas gerações, tanto nas competições quanto fora delas.